Pergunte a dez donos de máquina quanto custa a hora da escavadeira deles. Você vai ouvir dez números, e a maioria vai estar errada para menos. Não por má-fé: é que a conta tem oito linhas e quase todo mundo lança quatro.

O erro é caro em dois momentos. Na hora de formar preço de serviço, porque você fecha contrato com margem que não existe. E na hora de decidir entre reformar ou trocar, porque sem custo real não dá para comparar nada.

Vamos montar a conta inteira usando uma escavadeira de 22 toneladas como referência — no caso, uma TITAN TX-220. Os valores são de março de 2026 e servem de modelo: troque pelos seus e a estrutura continua valendo.

Escavadeira TITAN escavando em canteiro de obra
TX-220 · 22,1 t · 168 cv — a referência usada nos números deste artigo.

Primeiro: separe custo fixo de custo variável

Custo fixo existe com a máquina parada: depreciação, capital imobilizado, seguro, licenciamento. Custo variável só corre com a máquina trabalhando: combustível, óleo, peça de desgaste, material rodante.

Essa separação não é preciosismo contábil. Ela é o que revela por que uma máquina subutilizada é tão perigosa: o custo fixo continua correndo e se divide por menos horas, inflando o valor da hora.

A depreciação que ninguém lança direito

A conta é simples, mas depende de duas estimativas que a maioria chuta: vida útil em horas e valor residual. Para uma escavadeira desse porte em uso normal, trabalhe com 12.000 horas de vida útil e 30% de valor residual.

Com máquina a R$ 890.000 e residual de R$ 270.000, a depreciação por hora fica em R$ 51,67. Note que ela não muda com o uso — quem muda é o prazo em que você vai consumir essas 12.000 horas.

O custo do dinheiro parado dentro da máquina

Esta é a primeira linha esquecida. O dinheiro investido na máquina poderia estar rendendo em outro lugar, ou está pagando juros de financiamento. Nos dois casos há um custo.

A forma prática: pegue a média entre valor de compra e valor residual — aqui, R$ 580.000 — e aplique a taxa anual do seu capital. A 12% ao ano, dá R$ 69.600 por ano. Divididos por 1.800 horas trabalhadas, são R$ 38,67 por hora.

Atenção

Repare que este item depende de quantas horas você roda por ano. Se a máquina trabalhar 1.200 horas em vez de 1.800, o mesmo custo anual vira R$ 58,00 por hora. A máquina não ficou pior — a diluição é que piorou.

Combustível: o único que todo mundo lança

Uma TX-220 em serviço médio de terraplenagem consome entre 12 e 16 litros por hora. Trabalhando com 14 L/h e diesel S10 a R$ 6,20, temos R$ 86,80 por hora.

Vale medir o consumo real da sua operação em vez de usar o número do catálogo. A diferença entre um operador que trabalha em modo econômico e outro que deixa a máquina em rotação alta o dia inteiro chega a 12%.

Manutenção, óleos e filtros

Aqui entram duas linhas distintas. Óleos e filtros seguem o plano de revisão e são previsíveis: cerca de R$ 9,50 por hora considerando trocas a cada 250, 500, 1.000 e 2.000 horas.

Manutenção corretiva e peças de desgaste geral são menos previsíveis, mas não são aleatórias. Uma regra que funciona bem: entre 2% e 3% do valor da máquina por ano. Ficando em 2,5%, são R$ 22.250 anuais, ou R$ 22,00 por hora em 1.000 horas úteis de referência anual do item.

Material rodante: a linha que come o orçamento

Este é o item mais subestimado em escavadeira de esteira. Um conjunto completo — esteiras, roletes, rodas motrizes e guias — custa por volta de R$ 78.000 e dura de 4.000 a 6.000 horas dependendo do terreno.

Em 5.000 horas, são R$ 15,60 por hora. Em terreno abrasivo, pedra solta e barro com areia, essa vida cai facilmente para 3.500 horas e o custo salta para R$ 22,30. É por isso que a mesma máquina custa diferente em obra diferente.

Material rodante representa até 20% do custo de manutenção de uma escavadeira ao longo da vida. Esteira mal tensionada acelera esse desgaste em quase o dobro.

Operador e encargos

Se você contrata operador, o custo dele é da máquina. Com salário, encargos, EPI e benefícios em R$ 6.800 por mês e 176 horas mensais, chegamos a R$ 38,64 por hora.

Seguro, licenciamento e rastreamento

Cerca de R$ 14.000 por ano entre apólice, rastreador e taxas. Em 1.800 horas, são R$ 7,78 por hora. É pouco na proporção, mas é custo fixo — some.

Fechando a conta

Somando tudo, para uma TX-220 rodando 1.800 horas por ano:

DepreciaçãoR$ 51,67
Custo de capitalR$ 38,67
CombustívelR$ 86,80
Óleos e filtrosR$ 9,50
Material rodanteR$ 15,60
Manutenção e peçasR$ 22,00
OperadorR$ 38,64
Seguro e taxasR$ 7,78
Custo por hora R$ 270,66

Duzentos e setenta reais por hora. Se você vinha usando R$ 190 ou R$ 200 — que é o número que mais se ouve por aí —, cada hora de serviço vendida estava deixando R$ 70 na mesa.

O fator que muda tudo: horas por ano

Refaça a mesma conta com 1.200 horas anuais em vez de 1.800. Depreciação e combustível por hora não mudam, mas capital e seguro sim:

  1. Custo de capital sobe de R$ 38,67 para R$ 58,00
  2. Seguro e taxas sobem de R$ 7,78 para R$ 11,67
  3. O custo por hora vai para R$ 293,88

Nove por cento a mais pela mesma máquina, fazendo o mesmo serviço, só porque ela ficou mais tempo no pátio. É o argumento mais forte que existe a favor de manter a frota girando — ou de vender o que está sobrando.

E a hora parada?

A conta acima assume que a máquina trabalha quando é chamada. Quando ela quebra no meio da obra, entra um custo que nenhuma planilha captura: equipe parada, caminhão esperando, prazo estourado e, às vezes, multa contratual.

Uma frente de terraplenagem média parada por um dia custa entre R$ 4.000 e R$ 8.000 entre mão de obra ociosa e equipamento de apoio. Três paradas de um dia no ano já equivalem a mais de 60 horas de máquina.

Por que isso importa na hora de comprar

É aqui que disponibilidade de peça e tempo de atendimento técnico deixam de ser detalhe comercial e viram linha de custo. Uma máquina R$ 40.000 mais barata que fica cinco dias esperando peça pode sair mais cara já no primeiro ano.

O que levar deste artigo

  • Custo por hora tem oito linhas, não quatro. Capital, material rodante e seguro são as mais esquecidas.
  • Horas trabalhadas por ano mudam o resultado tanto quanto o preço do diesel.
  • Meça o consumo real da sua operação em vez de usar o número do catálogo.
  • Hora parada é custo, mesmo sem aparecer em nota fiscal nenhuma.
  • Refaça a conta a cada seis meses: diesel e peça mudam de preço mais rápido que a planilha.

Se quiser, mande sua operação para a gente — modelo, horas por ano e tipo de serviço — que devolvemos essa mesma planilha preenchida com os números da sua máquina.